Rodrigo Brand | A.A.
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A.A.

– Anônimos Anônimos, boa noite.

– Boa noite. Com quem eu falo?

– Senhor, é política dos Anônimos Anônimos não revelar nenhuma informação em relação à identidade.

– Claro. Claro, eu entendo.

– Em que podemos servir?

– É que eu tenho um problema, sabe.

– U hum.

– Eu… eu acho… eu acho que eu também sou um anônimo.

– Somos todo ouvidos.

– E isso tem me gerado algumas dificuldades, entende?

– Perfeitamente.

– E eu não sei muito bem como lidar com isso. Talvez… eu precise de ajuda.

– Compreendemos.

– Por que no mundo de hoje é muito importante conhecer pessoas. Não é? Fazer parte de uma rede social… ter contatos…

– Parece coerente.

– E sendo um anônimo…

– Claro. Estamos aqui para ajudar.

– Olha, eu até tenho um perfil no facebook.

– Importante.

– Mas, por exemplo, eu não tenho twitter.

– Hum.

– Acho que é uma dificuldade de me expor, talvez.

– U hum.

– No facebook, por exemplo, eu vejo as pessoas postando… tipo, aonde elas foram, com quem elas se relacionam, se elas comeram ou não, se estão felizes, se estão tristes… tem gente que posta até… se foi no banheiro.

– Acontece.

– E eu meio que não me sinto muito à vontade de fazer isso.

– Entendemos.

– Fotos, por exemplo. Eu até tento colocar uma de vez em quando, mas acabo apagando. Ou mudanças no status. Seria medo de rejeição?

– O que o senhor acha?

– É importante a gente se expor, não é?

– Há estudos.

– Eu penso que… eu tenho medo que… Porque a gente tem que ser lembrado. Não tem? Vai que as pessoas me esquecem. E se eu estiver perdendo amigos? Trabalhos? Pode ser até um sintoma de anti-sociabilidade. E se isso evoluir pra um comportamento… diferente?

– Fale mais sobre isso.

– Tipo: quem quer ser diferente? De verdade. Fala. Não é muito bom ser diferete. É? E se as pessoas não gostarem de mim? E se…

– Sim?

– Nada.

– Senhor, estamos aqui para te ouvir.

– Se uma árvore cai numa floresta, mas ninguém está lá pra ver, ela realmente caiu?

– O senhor está propondo uma questão filosófica.

– Da mesma maneira, se alguém faz alguma coisa, mas não publica na rede social, esse alguém realmente fez essa coisa?

– Acho que entendo aonde o senhor quer chegar.

– Seguindo essa lógica, se esse alguém sequer tem uma rede social… Ele existe?

– Realmente complexa.

– Eu estou aqui. Mas eu posso não estar. E se…

– Senhor?

– E se eu… desaparecer? Isso pode acontecer, não pode?

– Sempre existe uma possibilidade.

 

– Senhor?

– Eu acho que eu não gostaria de desaparecer não.

– Existir é uma condição essencial.

– É disso que eu estou falando! Do essencial! Eu já não me sinto capaz de julgar o que é essencial!

– Nada do que se alarmar.

– Na verdade, por comparação eu to longe de saber o que é essencial. Tipo, essencial do dicionário mesmo, sabe, que constitui o mais básico ou o mais importante em algo; fundamental.

– O fundamental realmente é essencial.

– Exato. Eu já não sei o que é fundamental. Não é fundamental o que todos fazem?

 

– Senhor, eu…

– Eu te confundi, não foi? Me desculpe.

– Não tem que se desculpar.

– Será que eu posso te fazer uma pergunta?

– É… estamos aqui para…

– Você existe?

– Eu estou aqui falando com o senhor.

– Mas como é que eu sei que você não é uma invenção da minha cabeça?

– Realmente…

– Ou que eu não sou uma invenção da sua?

– é dificil de provar. O importante é… é…

– Exato.

 

– Existe alguma outra coisa em que podemos ajudar?

– Vocês tem uma carteirinha? Tipo, uma identidade. Com foto. Nome. Porque daí pelo menos eu poderia–

– Senhor, é política dos Anônimos Anônimos–

–  Não revelar nenhuma informação em relação à identidade. É verdade, você me falou. Talvez eu deva aceitar que eu vá…

– Senhor?

– Normal.

– Senhor?

– Darwin disse que as espécies evoluem e que os menos adaptados desaparecem. Ele não disse que os mais fortes sobrevivem. Ou os mais inteligentes. Os mais talentosos. Ele disse que os mais adaptados às condições do meio sobrevivem. Continuam. O resto… puff.

– Puff?

– Desaparecem.

– Senhor, eu posso afirmar que anônimos existem e que o senhor não vai desa–

– 99.9%

– 99,9% o que?

– Das espécies que existiram no planeta agora estão extintas. Ou seja… puff.

– Senhor, o senhor não vai puff.

– Tudo bem. Eu já me sinto melhor.

– Que bom que pudemos ajudar.

– Agora que eu falei com você eu descobri que eu faço parte da maioria.

– Da maioria?

– Dos 99.9%

– Senhor–

– Eu sinto que já está até acontecendo…

– Senhor–

– Uma sensação de liberdade…

– Senhor–

– Puff.

– Senhor? Senhor??

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