Rodrigo Brand | Amor porteño
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Amor porteño

 

Estavam parados há horas. Um de frente para o outro. Olhavam-se. Miravam-se. O relógio, cansado, já não mais se movia. Havia desistido de ambos. Quem faria o primeiro movimento? Ela. Pegou um jarro de plantas e atirou. Ele, esquivou o ombro há tempo do jarro se espatifar na parede à suas costas. Era sua vez. Abaixou e pegou uma das flores do jarro. Uma singela margarida. Ofereceu a ela. Ergueu o braço na linha do peito. Ela, riu-se. Sarcasticamente. Direto ao coração. Ele, esquivou novamente. Sorriu de modo tenro. Direto ao coração. A expressão dela se fechou, encerrou-se. O sangue ferveu. Os olhos ficaram ainda mais negros. Os cabelos ficaram ainda mais negros. A pele porém, permaneceu alva. Não expressaria. Não. Não coraria a pele. “Vadio”, pensou. “Piranha”, sorriu. Era a vez dela novamente. Desceu dos sapatos. Era guerra. Arremessou ambos em direção ao torço dele. Um acertou o braço, o braço da delicada margarida em riste. O outro o peito. Foi sua vez de cerrar a expressão, de engolir seco. A margarida, não mais erguida, caiu ao chão. Afrouxou um pouco a gravata negra. Sim, tinha algo de negro, como todos os outros. Tinha o sangue rubro, como todos os outros. Pensou novamente, “piranha”. As mangas, já dobradas, deixavam expostos os braços, mas não coraria, não, não daria este prazer a ela. Abaixou-se lentamente. Tinha as mãos livres. Pegou ambos os sapatos. Vermelhos. Com delicadeza os ergueu e olhou para ela. Nos olhos. No fundo da alma. Lentamente quebrou ambos os saltos. Os dois estalos puderam se ouvir em cada fibra do corpo dela. Eram seus sapatos favoritos. Sim. Era guerra. “Cão”, foi seu pensamento. Ele recebeu. Aguardava. Era sua vez. Ela olhou para o lado. Estava próxima da televisão. Da televisão tela plana de 42 polegadas comprada à longas prestações para assistir todas as partidas do amado futebol. Foi com a mão, suavemente, como se fosse acarinhar seu membro, e com um leve movimento fez a televisão cair ao chão. Fez-se em pedaços. Era o fim. O fim dos jogos do amado futebol. Sua mandíbula travou o máximo que pôde ao ver os cacos no chão. Até o relógio se contraiu com a visão, único espectador do famigerado crime. Ele não pôde se conter, movimentou-se. O relógio pensou em fazer o mesmo, mas… E se o vissem? E se a ira fosse voltada contra ele? Achou melhor continuar parado. O ruido dos sapatos dele ecoavam como os ponteiros do relógio. Este, suou frio. Ele foi até o sofá. O sofá branco, presente materno. Não do seu lado materno, claro. Levou a mão ao bolso, tirou um pequeno canivete. Presente do seu lado paterno, talvez para ocasiões como esta. Sacou a lâmina. Ela, talvez prevendo o crime, quase moveu, mas tarde demais. Ele cravou o canivete no sofá, cortou seu ventre de cima à baixo. Este gemeu, não entendendo o acontecimento. Pediu por misericórdia, mas não a obteve. Era o seu fim. O ferimento era grave demais para qualquer recuperação. Ela corou. Era impossível conter. A ira tomou conta de sua pele e ruborizou todo o seu corpo. Não havia mais espaço para delicadezas. Levou com vigor ambas as mãos ao vestido vermelho que cobria o seu corpo. Era dela, sim, o vestido era dela, mas foi presente de lua-de-mel. E era o vestido favorito dele. Puxou cada lado para seu oposto partindo o vestido ao meio, lentamente, em um demorado movimento de cima à baixo. Deixou os pedaços cairem ao chão. Sem piedade. Farrapo. Não passava de um farrapo agora. Aquele que era um tão memorável adereço de amor. “Cretina”, pensou.  Seu corpo semi-desnudo, ali, no meio da sala. Era sua vez. Tinha que fazer algo. Tirou o cinto com uma calma angustiante, o enrolou na mão direita. O que faria? O que este cão faria? De súbito levou o punho contra a parede. Não. Não era feita de tijolos, mas de madeira e reboco. Foi o suficiente para causar dano. Um buraco. Irremissível. Ela não pôde conter um breve gemido. Era a casa de seus sonhos. Seu lar sonhado de cercas brancas. Se pudesse gritaria, mas não daria a vitória a ele assim tão breve. Jamais. Foi à mesa de centro e pegou uma escultura de bronze. Dom Quixote. Sua favorita. Olhou para a janela e, em seguida, novamente para ele. Ele, franziu a testa. Não entendeu. Era uma escultura de bronze ora bolas, que mal faria um pequeno… lançamento. “Burra”. Foi a vez dela sorrir. Sorriu por inteiro um redondo “idiota”. Arremessou a escultura pela janela. O vidro, claro, foi feito em pedaços. Foi questão de segundos até o alarme do carro disparar. Seu coração quase saltou pela boca. Quase foi ao chão ao olhar pela janela e ver encravado no vidro de sua BMW a escultura de bronze de Dom Quixote de La Mancha. Era uma nova obra de arte, Dom Quixote e o carro. Sua mão tremia. Precisava de água. Estava prestes a ter espasmos musculares. Pegou o jarro em cima da mesa de centro, do lado oposto ao dela. O levou à boca. Iria beber de gargalo, da fonte, coisa que ela odiava. Mas aquilo não era nada. Ela sorria vitóriosa. Ele, garrafa à boca, parou. Teve um impulso. Atirou o conteúdo na face dela. Foi questão de segundos até o cabelo se desfazer e se misturar à maquiagem que escorria. A maquiagem que ela demorou horas para fazer. O cabelo que ela demorou horas para arranjar. Sua expressão de espanto era por demais cômica para que ele pudesse se conter. Explodiu em uma risada silenciosa. Um risada de alma. Aquela mulher à sua frente com a cara borrada e o cabelo colado ao rosto agora sim estava desnuda. Sua felicidade, entretanto, durou pouco. Ela se atirou contra ele, um mar de fúria. Ambos foram ao chão, ela por cima. Fincou as unhas em seu peito, rasgou sua camisa branca como havia feito com seu vestido, meio a meio, mas desta vez em um ríspido movimento. Os botões, os caros botões, voaram para todos os lados. Ele agora, tinha a expressão de espanto. Não conseguia se dar conta de como aquela mulher, bem menor que ele, pôde sobrepuja-lo. Este instante de reflexão o custou caro. Não satisfeita com a camisa, levou as mãos à gravata e a apertou. Um nó cubano. Os olhos dele se encheram de água. Se debatia como um peixe fora d’água. Tinha que reagir de imediato ou seria seu fim. Jogou a fera para o lado e se arrastou tentando desfazer o nó da gravata. Sentia que iria desmaiar a qualquer momento. “Puta”, “piranha”, “cadela”. Era impossível, a gravata estava por demais apertada. Tentava ganhar distância. Ela não tinha terminado. Sentiu suas mãos em seus tornozelos. Ela não desistiria. Viu de relance o canivete no chão, sua única salvação. Tirou as mãos da gravata e se arrastou como pôde. Ela o puxou pelas barras da calça. “Cretino”, “imbecil”, “vadio”. Ele conseguiu escapar, mas as calças ficaram prisioneiras. Alcançou o canivete e cortou a gravata a tempo de não sufocar. Ainda tossia e via turvo quando tentou erguer o corpo, a mão segurando firmemente a lâmina. Ela veria agora. Virou-se. Foi atingido em cheio por uma cadeira de madeira. A cadeira se fez em pedaços. Ele, se fez em pedaços. Agora era ele, ao chão, o desnudo, o vulnerável. Ela arranhava suas costas. “Louca!”, pensou. Virou-se com dificuldade para encarar a besta e seu temperamento. “Gorda”, pensou cruelmente ao encontrar com os olhos dela. Ela leu. Parou por um instante, ferida, mas recuperou-se. Arranhou seu rosto impiedosamente. Seu tão amado e belo rosto que a encantara, como tantas outras. Ele rugiu por dentro como todo animal narcisista. O sangue borbulhou o suficiente para que conseguisse virá-la e segurar suas mãos. Agora ele estava por cima. O controle era seu. Ela tentou mordê-lo, mas em vão. Era a sua vez. Os olhos negros se encaravam, rugiam. Os peitos arfavam. Ele refletiu cautelosamente. Não com o cérebro, que havia sido deixado de lado há tempo, mas com a pele. Moveu-se. Seus lábios foram de encontro aos dela com a maior paixão possível. Rei sobre a Rainha. Ela, não deixou por menos. Retribuíu. O beijou de volta ainda com mais paixão. Rainha mata Rei. Xeque-mate. Rolaram no chão rasgando o que restava da roupa. Ele, colocou seu membro dentro dela. Ela, já estava dentro dele há muito tempo. Irremediavelmente. Ardiam, derrubando tudo ao seu redor, quebrando todo o possível. Foda-se. Foda-me. Fodo-te. O relógio, constricto, permaneceu imóvel, tímido, aterrorizado. Era melhor esperar o dia de amanhã para ecoar novamente. Queria sobreviver, talvez a única testemunha intacta de ambos. Eles, foram de encontro aos móveis, repetidas vezes. Os móveis, foram de encontro à parede, repetidas vezes. Como o passar dos segundos. Como o passar dos minutos. O tempo era marcado pelo ranger dos móveis, pelo ranger dos corpos. O relógio não resistiu, foi ao chão, como todo o resto da casa. Foi feito em pedaços, como todo o resto da casa. Os únicos sobreviventes foram os dois amantes e sua paixão. Renovada. “Filhos da puta”. Foi o que pensou o relógio em seu derradeiro suspiro, batendo pela última vez às quatro da manhã.

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