Rodrigo Brand | [ Receita de Viver ]
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[ Receita de Viver ]

 

Os tristes que me perdoem

Mas felicidade é fundamental. É preciso

Que haja qualquer coisa de amor em tudo isso

Qualquer coisa que mova, qualquer coisa que inspire

Em tudo isso (ou então que o sujeito, pelo menos por um dia,

Se socialize alegremente em cores vivas, como no Carnaval do Brasil).

É preciso que haja meio-termo. Para que

Tudo isso seja belo. É preciso que súbito

Abra-se um sorriso em meio à lágrimas e que o rosto

Adquira de vez em quando a cor corada só encontrada no limiar de um pôr-do-sol.

É preciso que tudo isso seja por querer, e que se reflita e desabroche

No olhar. É preciso, é absolutamente preciso

Que seja tudo honesto e sincero. É preciso que umas pálpebras cerradas

Lembrem um verso de Vinícius de Moraes e que se acaricie nuns braços

Alguma coisa além da carne: que se os toque

Como um soneto ou uma canção ao fim de tarde. Ah, deixai-me dizer-vos

Que é preciso que a mulher e que o homem que ali está frente ao seu abismo

Permita algo que encante, nem que seja como a luz do sol

Entrando por rachaduras numa casa velha.

É preciso que algum momento seja leve, como um resto de nuvem:

Mas que a nuvem tenha forma, para que seja preservada na memória.

É importantíssimo. Como um oásis no deserto, pelo menos uma boa memória.

Um olhar querido, uma boca úmida, uma palavra amiga, uma história, é de extrema pertinência.

É preciso que os extremos se cruzem. Que o corpo dê lugar;

Que uns ossos e uns músculos não briguem tanto entre si.

Gravíssimo é a constância de um só elemento. É como um rio sempre cheio, ou sempre seco.

É preciso algo de vazão, alguma coisa que corra. Indispensável

Que haja uma hipótese de alegria, e em seguida

O sujeito se altere em cálice, e deixe-se preencher por algo outro

Que não apenas tristeza e solidão.

Uma expressão renascentista, de berço novo

Que possa iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.

Sobremodo pertinaz é estarem a cabeça e a coluna vertebral

Levemente alinhados; e que de quando em quando os ombros puxem para trás

Deixando o peito à mostra.

Faz bem que haja um certo quê de novidades

E que elas sejam frescas, frescas como o orvalho em grama do campo.

É aconselhável, se deixar sensível à carícia no sentido contrário.

Apenas sensível (um mínimo de sensibilidade faz bem).

Preferível sem dúvida o corpo presente

De forma que um abraço envolva completamente a contra-parte

A haste rígida sustente sem dor as pétalas de uma flor

E esta deixe seu néctar tomar conta do ar ao seu redor.

37º centígrados podem eventualmente acalentar mais de um corpo.

Os olhos, quando abertos e diretos, podem eventualmente conduzir até a alma.

E assim é todo o resto. Mãos, braços, pernas, seios, pau, pés, vagina,

Dedos, cabelo, até as Costas! São veículos de alguma ventura e prazer.

Que desçamos à profundos vales, mas que também ascendamos à altos píncaros.

Que se possua uma certa capacidade de emudecer subitamente todas as dúvidas.

Sobretudo, que não se perca nunca, não importa em que mundo

Não importa em que circunstâncias, a infinita volubilidade

E que, ao ser acariciado no fundo de si mesmo

Se permita transformar em algo de graça; e que exale sempre

Um quê de perfume; e destile sempre

Um quê de paixão; e cante sempre o inaudível canto

Da sua própria combustão, e não deixe de ser nunca o eterno ser

Efêmero; que em sua incalculável imperfeição

Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda criação.

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